Casa de Chá da Boa Nova

Já foi há muito tempo que visitei a Casa de Chá da Boa Nova, a menina dos olhos do Chef Rui Paula. O espaço estava aberto há um mês e prometia ser uma aposta na conquista de mais uma estrela para a gastronomia da zona Norte do País.
O edifício foi concebido na sequência de um concurso levado a cabo pela Câmara Municipal de Matosinhos em 1956, do qual saiu vencedor o arquitecto Fernando Távora. Após a escolha do local para a sua implantação, nos rochedos da praia da Boa Nova, Távora entregou o projecto a um dos seus colabores, Álvaro Siza Vieira, que estava a dar os primeiros passos na sua carreira.
A Casa de Chá, classificada como Monumento Nacional em 2011, esteve vários anos ao abandono mas foi recentemente requalificada pela Câmara Municipal de Matosinhos, sob supervisão do premiado arquitecto.
Quando chegamos a porta estava fechada e ficamos algum tempo a tentar perceber por onde seria a entrada alternativa que entretanto descobrimos não existir.

Já no interior encaminharam-nos para uma sala com uma fabulosa vista de mar e decoração a lembrar a Casa de Chá que conheci na minha infância, um espaço a precisar de uma reviravolta, no meu parecer. A reduzida altura da sala e todo o ambiente muito escuro tornam o espaço pesado e fechado, não fosse estar mesmo em cima das rochas e quase beijar o mar e tornar-se-ia claustrofóbico.

 

Fomos presenteados com uns amuse bouche de Grissini, Cones de salmão com queijo creme e Estendal de Pataniscas de Bacalhau a fazer lembrar a roupa a secar ao sol muito ao estilo do famoso prato do Chef Ljubomir Stanisic do 100 Maneiras… Plágio gastronómico? Quem terá sido o primeiro autor?
Sem que eu me tivesse apercebido já tinham escolhido o que eu ia jantar… o mais caro da lista. O menu “O Mar e a Terra” tem 9 propostas culinárias por 120€/pessoa e é sugerida para acompanhar a harmonização com um menu de vinhos criteriosamente seleccionados para cada prato (75€/pessoa). “A sério?” pensei eu. Não devem ter reparado que o meu carro é o mais humilde do parque automóvel. Não vi o menu mas sei que, além dos outros menus de degustação, têm duas opções mais acessíveis: Arroz caldoso de Peixe e Lavagante (80€/2 pessoas) ou Pá de Cabrito Assada (70€/2 pessoas).
O conceituado Chef Rui Paula, responsável pelas criações da cozinha da Casa de Chá, refere que pretende neste seu novo espaço dar mais atenção à componente sazonal na confecção dos pratos mantendo a “linha” condutora do seu trabalho sempre pautado de rigor e exigência. Concluo que os menus deverão variar segundo a estação do ano.
Encaminharam-nos à sala de jantar e felizmente pudemos escolher uma mesa na varanda mesmo em cima das rochas, bem mais convidativa do que a sala de jantar. Um local impressionante e único. Pena que o conforto das cadeiras não fosse adequado ao prestigio que o espaço pretende ter.

Começaram a servir as criações…
Para iniciar, como cortesia do chef, Sardinha fumada com carpaccio de melancia.

Menu “O Mar e a Terra”
Foie-gras e as uvas
O sabor forte da terrina de foie envolto no crocante de arroz e amêndoa contrasta na perfeição com o doce das uvas marinadas em cachaça, açúcar, baunilha e mousse de Porto LBV.

Carabineiro e a sua feijoada
Com espuma de algas, um prato muito leve.

Robalo no seu habitat
Ensopado em água da cozedura do peixe, com sabor intenso a mariscos que se destaca em detrimento do robalo.

Cannelloni de Bacalhau com puré de grão de bico
Massa fresca e espuma de coentros

Estaladiço de Leitão
Com cobertura crocante, cidra e laranja nitrogénica.

Vitela de leite e topinambur
(Topi quê?)

As sobremesas
Queijos nacionais

Morango, cereja e amêndoa

Figo, framboesa e pistachio

 

Eu confesso que não fui talhada para apreciar este tipo de restaurantes e menus de degustação repletos de ingredientes invulgares e de variadíssimas formas de os confeccionar que os transformam em pós, mousses, espumas e aromas. Não há dúvida que são surpreendentes e conferem um ar super glamouroso à descrição pormenorizada dos pratos que chegam à mesa… Mas eu não sou complicada, que é que querem?
Obviamente que a minha educação me permite saber comportar-me sempre à altura de qualquer espaço ou situação com charme e elegância em concordância com cada ocasião, mas estes restaurantes nunca me deixam totalmente satisfeita porque o meu riso controlado não me permite desfrutar completamente a refeição.
Em relação à Casa de Chá da Boa Nova sinto-me como um jovem casal de namorados em ruptura… “Tu não tens culpa… Tu és perfeita… só não fazes o meu género.”
Boas garfadas,

Eva