Ferrugem

Dia do pai e eu a trabalhar até às 22h em Famalicão… Depois de alguma ponderação sobre o assunto concordámos que sería mais prudente jantar por lá. Para mim é local apenas de trabalho, confesso que a minha vida social em Famalicão é mesmo muito limitada, por esse motivo escolher um restaurante por esses lados fez surgir um enorme vazio no cérebro. Daqueles com rolos de cotão a rebolar… (Por favor não aproveitem para fazer piadas de mau gosto)
Recomendaram-me que experimentasse o Praça com o argumento de que “é muito melhor ao jantar do que ao almoço” já que eu não tinha ficado muito satisfeita quando lá fomos num almoço só de meninas… Foi uma comédia, como sempre, mas aquele pão de ló húmido mais seco do que pão do dia anterior deixou a desejar…
A Ana acabou por se lembrar que era a situação ideal para experimentar o muito afamado Ferrugem. OMG, só no dia seguinte já com os pés debaixo da mesa me apercebi que tinha sido uma belíssima escolha!!!
Adoro a tendência actual do regresso às origens culinárias da cozinha Portuguesa, de utilizar os produtos tipicamente tradicionais e muito nossos nas iguarias dos mais conceituados restaurantes. É por esse motivo que aprecio o Tasca da Esquina, o São Gião… e também o The Yeatman e o DOP embora num outro registo, if you know what I mean… O Ferrugem não é diferente. Basta referir que tem como “especialidades da casa” o famoso Pastel de (Bacalhau com) Nata® e a deliciosa Manteiga de Azeite® cuja apresentação é autenticamente idêntica a uma pastinha de dentes. Produtos tradicionais com aquele twist. Adoro!
O espaço tem um ar informal, acolhedor e intimista. Cosy! Nesse aspecto totalmente oposto ao The Yeatman.

 

Começámos a refeição com pão fatiado acompanhado da tal manteiga e, enquanto apreciavamos o menu, foi servido um caldo verde e broa de milho tostada com azeite. Saudação do chef. Mais Português que isto só se estivéssemos todos a jantar com o cachecol da Selecção Nacional ao pescoço…
Mas desenganem-se os leitores.. Não, não era um caldo verde qualquer… Era um creme mesmo cremoso (desculpem a redundância) com o sabor forte e típico da couve galega sem que esta fique presa entre os dentes (genial!) apimentado pelo gosto do chouriço bem presente em cada colherada, ao contrário do que habitualmente acontece no caldo verde tradicional. Vinha servido num copo… para beber. Como diria o mais recente pai da tribo, o Nuno: Divinal!

No menu pudemos descobrir algumas curiosidades sobre o restaurante: “De um estábulo do séc. XVIII e da sã loucura de um casal nasce o Ferrugem, um restaurante que tem como ingredientes a hospitalidade e as raízes populares da cozinha portuguesa, condimentados com criatividade e inovação. Dalila e Renato Cunha assinam as propostas, valorizando os produtos tradicionais, preferencialmente os autóctones e de produção biológica, e assumem-se como embaixadores da gastronomia minhota e dos vinhos verdes, num espaço de celebração gastronómica, genuíno, informal, sofisticado e cosmopolita, em plena aldeia, … em pleno Minho!”
Optámos por experimentar o menu da estação que inclui 3 momentos: entrada, prato principal e sobremesa à escolha entre várias opções. Difícil foi escolher!!
Para entrada a Ana optou pelo caviar português (ovas de sardinha, caviares de vinagre, tomate, broa de milho, ervas finas e espuma de azeite), eu deliciei-me com o entre o panadinho e o molho verde, venha o polvo e escolha! e para os restantes o obrigatório Pastel de (bacalhau com) nata. Entretenham-se com as fotografias de lamber os dedos.

Num segundo momento optámos todos pelos pratos de peixe: robalo do atlântico corado e arroz cremoso de açafrão, estaladiço de pão d’alho e ervas finas e lascas de bacalhau com azeite transmontano e coral de negrinha de freixo, legumes salteados e crocante de grão-de-bico com chouriço. Maravilhooooooso…

Para acompanhar o Papá pediu Conde d’Ervideira Reserva – Antão Vaz, segundo pude apurar, umas das castas mais valorizadas do Alentejo.
“Por ser dia do Pai toda a nossa carta de vinhos tem 25% de desconto”. Perfeito!
O Tomás manteve-se do início ao fim no leite morninho.
Durante o jantar uma pergunta repetidamente soou na minha cabeça… “Porque é que nunca tinhamos cá vindo?!”
Para terminar, arte em forma de sobremesa: Romeu e Julieta v. 3.0 (queijos portugueses afinados com os nossos doces e bolachas), pêra rocha do oeste em geleia de vinho do porto sobre tarte de queijo fresco (um clássico do Ferrugem) e um tributo ao abade de priscos (uma interpretação da doçaria tradicional do baixo minho). O Nuno já me estava a rogar uma praga porque estive uma eternidade de tempo a tirar fotografias ao “pudim” abade de priscos que de pudim não tinha nada mas transbordava de beleza e requinte de um prato digno de uma estrelinha Michelin.
No final “cafés e a conta por favor”. 37€/pessoa.
Recomendo mesmo que visitem. Mesmo! Meeeesmo!
Se precisarem de companhia, têm o meu número de telefone?

Boas garfadas,

Eva