Tasca da Esquina

 

Fomos passar o fim de semana a Lisboa. Tenho que vos confessar que eu não consigo gostar de Lisboa. As ruas cheias de tags, a zona ribeira muito degradada e com aspecto de abandono total, a quantidade de gente com aspecto suspeito nas ruas do bairro alto, os taxistas a deitar lixo na rua descaradamente… É inevitável fazer a comparação com o Porto e lamento querida capital mas estás longe de chegar aos calcanhares da beleza da Ribeira do Porto quando se atravessa a Ponte D. Luís ao final da tarde. Não há igual!  Infelizmente no Porto não há John Legend ao vivo por isso tivemos que nos deslocar à grande cidade.
Como é nosso hábito programámos o roteiro gastronómico com antecedência, durante a semana o Luís marcou na Tasca às duas para almoçar. Saímos de Ovar tarde e a más horas mas desta vez curiosamente o culpa não foi do Rui. Esperáva-nos à porta de casa prontíssimo para o fim-de-semana e a estranhar a falta de pontualidade britânica habitual do irmão. Pelo caminho avisámos o restaurante do atraso para o almoço e do outro lado uma voz respondeu “Só chegam às duas e meia? Não há problema nenhum!”. Depois de 2 horas de viagem e muitas voltinhas em ruelas da capital chegámos ao destino. Valeu-nos o GPS para evitar um atraso ainda maior. A Tasca da Esquina fica, como o nome indica, numa esquina de umas ruas estreitas na zona da Basílica da Estrela mas não se deixem enganar pelo nome. De tasca tem apenas o aspecto típico do grande balcão à entrada do restaurante que permite ver tudo o que acontece na pequena cozinha onde se passa toda a animação. Eu podia passar horas naquele balcão a vê-los trabalhar. Junto ao balcão estão disponíveis algumas mesas e bancos altos, lugar de destaque para apreciar a azáfama da cozinha durante a refeição e onde já jantei em algumas ocasiões. Indicaram-nos uma mesa na sala principal, confortável e com abundante luz natural, de onde se consegue espreitar a cozinha através do móvel que separa ambos os espaços e no qual estão expostos os livros de receitas do chef Vitor Sobral por entre elementos decorativos relacionados com a cozinha e os ingredientes que lá se utilizam. Se eu tivesse um restaurante este seria sem dúvida um exemplo a seguir não só na decoração como também no menu. Poucos pratos descritos em linguagem simples, cada qual uma combinação de ingredientes frescos que resultam num sabor divinal. Li há tempos que o chef Sobral, quando questionado numa entrevista sobre o facto de darem nomes estranhos à comida, respondeu “Como diz o Ricardo Araújo Pereira, a cozinha está muito apaneleirada. E devo confessar que me sinto um dos grandes culpados. Comecei a escrever e a falar assim e não previ o resultado. Hoje, nas minhas ementas aparece o «bacalhau no forno com batatas». Mudei completamente a forma, porque o cliente não precisa de saber se o alimento é cozido a baixa temperatura ou não. E também tem de lá ter um molho, se é uma espuma, um creme ou uma emulsão, é problema meu. O cliente não tem de saber isso, tem de saber se está bom ou não. E ponto.”
Pedimos petiscos: morcela com maçã, camarões salteados com malagueta e alecrim, lascas de bacalhau com batata e ovo, requeijão com pimentos e poejos, ovos com cogumelos. Paulo Laureano branco e fresco a acompanhar. Os pratos chegaram à mesa num instante, a menina que os serviu fez o favor de preparar o bacalhau. “Vou tentar não sujar tudo, não se admire se isso acontecer”, dizia ela enquanto partia o ovo estrelado com duas colheres e o misturava energicamente na cama de lascas de bacalhau e batata palha. O vinho serviu os 3 copos e desapareceu da nossa vista. Não entendo porque têm este hábito em alguns restaurantes mas deixa-me uma pulga atrás da orelha. Deliciámo-nos com as iguarias, de salientar o bacalhau e o requeijão.
Para terminar partilhámos entre os três farófias, creme queimado e pudim abade de priscos. Mais básico e completamente tradicional não podia ser. Nem mais gostoso…
A conta chegou à mesa numa panelinha. 82,60€. Incluía duas garrafas de vinho sem que tivessem questionado se podiam abrir a segunda. É claro que não há muita coisa para fazer em Lisboa que me agrade mais do que ficar bem sentada à conversa a beber um bom branco gelado por isso ali ficámos até que deixassem de nos encher os copos.
Recomendo e repito sempre que posso.
Tenho a sensação de que todas as boas coisas de Lisboa são trazidas de fora. Até o chef Vitor Sobral que é natural do Alentejo.
“Quando está deprimido, o que é que come?
Chocolate. Adoro.”
É cá dos meus!
Boas garfadas.
Eva
Podes consultar o menu integral (com preços) em www.tascadaesquina.com